Todos os dias podemos aprender algo de novo sobre como funciona na prática a eutanásia. Uma  carta indignada escrita por dois médicos de um hospital na Holanda para a JAMA Surgery levou a MercatorNet a revisitar uma carta publicada na Transplant International em 2017, sobre a eutanásia ao domicílio com doação de órgãos. Este não é um dos aspectos mais divulgadas da eutanásia nos Países Baixos.

Onde quer que seja legalizada, a eutanásia passa a ser progressivamente integrada na prática médica. Um dos desenvolvimentos mais úteis, ou macabros, dependendo do ponto de vista, é a eutanásia com doação de órgãos. Por outras palavras, um paciente concorda em ser morto para doar os seus órgãos, de forma que os seus rins ou fígado possam ser colhidos o mais rápidamente possível.

Aparentemente, um grande número de pessoas na Holanda está interessada em doar os seus órgãos após a eutanásia, mas, apesar de tudo, continuam a preferir morrer em casa. Esta exigência elimina uma fonte muito útil de órgãos. Dois médicos engenhosos, Johan P. C. Sonneveld e Johannes Mulder, do Hospital Isala, desenvolveram a doação doméstica de órgãos após a eutanásia, criando inclusivé uma sigla de fácil utilização, DODE, que significa “procedimento recém-introduzido de doação amigável ”.

 

A chave do processo consiste em “separar a experiência de morrer em casa da morte biológica subsequente e doação de órgãos no hospital, usando a anestesia como uma ponte.” O paciente é sedado e intubado em casa, onde perde a consciência rodeado pela sua família. Em seguida, ele é levado  inconsciente, numa ambulância, para o hospital, onde é eutanasiado.

Eis como eles descrevem o procedimento:

No dia marcado, com o anestesiologista-intensivista fora da vista do paciente, e após a última despedida consciente do paciente, o médico de família administra um sedativo (midazolam). O paciente adormece gradualmente; quando o paciente deixa de responder, o médico de família indica ao anestesiologista-intensivista que está na hora de anestesiar o paciente com propofol e intubação endotraqueal. A família pode despedir-se do paciente inconsciente e, quando estiver pronta, é feita a transferência de ambulância para o hospital. No hospital, o médico de família administra os medicamentos para o procedimento MAiD e, após a morte, segue-se um procedimento normal de recolha de órgãos. Ao fim de quatro horas, o corpo do paciente pode ser entregue em casa pelo agente funerário escolhido pela família.

Iniciar o procedimento de eutanásia em casa é muito mais humano, argumentam. “Sugerir que a eutanásia deve ocorrer no hospital ignora os desejos mais profundos desses dadores: seres humanos enfermos e cansados ​​do hospital que decidiram acabar com a sua dor no conforto e na privacidade de sua própria casa”, escrevem os médicos.

Uma cadeia de TV holandesa entrevistou um homem com ELA que decidiu doar os seus órgãos quando chegasse o momento certo. "É tarde demais para mim, mas posso doar os meus órgãos. E para mim, isso é uma coisa muito boa ”, diz ele. “E com órgãos que ainda estão bons. Apesar da ELA, posso dar esperança a outras pessoas. ”

Não existem dados que indiquem qual a frequência da prática da DODE - provavelmente ocorreram apenas uns poucos casos.

Quando esta prática é questionada, a campanha promocinoal dos médicos é simultaneamente horrível e atraente. Você é absolutamente inútil e está a ocupar espaço útil. No entanto, a sua vida valerá a pena se nos der os seus órgãos. Alguém previu que legalização da eutanásia nos Países Baixos levaria à recriação dos ladrões de corpos, numa versão do século 21?

Ah, e por que motivo os DODEs ficaram indignados? Porque um artigo na JAMA Surgery, em 2020, sugeriu que o melhor local para a prática da eutanásia de dadores de órgãos é no hospital e não em casa. Não é bem assim, replicam eles. “Defender a necessidade de internamento hospitalar afastará muitos potenciais doadores”.

Traduzido de Mercatornet

(in https://mercatornet.com/home-is-where-the-heart-is-for-dutch-euthanasia/70466/)