Como 18 candidatos num estado descobriram as suas verdadeiras identidades semanas antes das eleições

O México foi a votos no domingo dia 6 de junho. Foi um enorme exercício democrático, as maiores eleições na história da nação. Noventa e três milhões de eleitores escolheram 500 deputados federais, 15 governadores estaduais, e os seus representantes em 30 congressos locais e 1.900 conselhos municipais.

Uma força política recente nestas eleições foi o Fuerza por México (FxM). Como todos os partidos recentes, promete uma nova vida para os mexicanos (como bem demonstra a sua atraente música de campanha). Por exemplo, é um partido ferozmente a favor dos direitos das mulheres. No vídeo de campanha abaixo, quatro mulheres denunciam com raiva a violência sexual. A última diz aos espectadores "al feminicida córtale los huevos!" - os homens que matam mulheres devem ter prisão perpétua e serem capados. 

 

Portanto, não pode haver absolutamente nenhuma dúvida sobre a completa sinceridade das credenciais feministas do FxM. Mas, no estado de Tlaxcala, a oeste da Cidade do México, tiveram dificuldade em preencher os requisitos nacionais relativos à paridade de género nas listas eleitorais. Assim, dezoito dos seus candidatos estavam em risco de serem recusados.

Felizmente, os 18 candidatos do FxM em risco de exclusão, descobriram subitamente a sua verdadeira identidade de género. Apesar das aparências, eles são, e sempre foram, mulheres. Até poucos dias antes, apenas havia uma candidata transgénero a concorrer para um conselho municipal de Tlaxcala, Valeria Lorety Díaz. No final, foram 19. A comissão eleitoral nacional tinha prometido que as eleições de 6 de junho seriam as “mais inclusivas” na história do México. Em Tlaxcala foram-no seguramente.

Tal como esperado, levantaram-se vozes transfóbicas contra a epifania de género no FxM. Valeria Lorety Díaz disse à Televisa, uma rede nacional de TV: "Eles estão a brincar, utilizando uma identidade falsa. Eles registaram-se como mulheres transgénero, mas de que forma estão a fazer a campanha? Eles deveriam comportar-se como mulheres transgénero, como eu.”

No entanto, ela está claramente errada. A comissão eleitoral de Tlaxcala organizou um animado debate, no início deste mês, através do Zoom. Os seus membros concluíram que era errado duvidar da auto-identificação de género dos candidatos, e que não havia provas para apoiar as alegações de uma falsa transição.

Como poderia haver? Apenas os candidatos sabem se são homens ou mulheres, ou o que quer que seja. A biologia não tem nada a ver com isso.

O presidente do FxM, Luis Vargas, rebateu as críticas. "A questão trans tem três vertentes: transgénero, transexual e travesti. E este assunto para a comunidade (trans) é muito abrangente. Eu não posso entrar na privacidade das pessoas e dizer-lhes "você sim, e você não", disse ele a um entrevistador na TV.

A auto-identificação de género está bem estabelecida no México. Em 2018, a Human Rights Watch congratulou-se com a decisão de um tribunal, pela qual uma pessoa tem o direito de mudar de género apenas com uma alteração documental, definindo-a como "um farol para a mudança". A legislatura de Tlaxcala aprovou a auto-identificação de género em 2019, considerando-a um direito humano básico. Não há necessidade de intervenção médica. É certamente uma maneira muito mais conveniente de passar a ser trans do que o procedimento sugerido pela senhora que empunhou a tesoura no vídeo do FxM, acima.

Michael Cook

Traduzido e adaptado de Mercatornet

(in https://mercatornet.com/as-mexico-votes-transgender-self-id-makes-a-joke-of-gender-parity-in-politics/72434/)