Pode alguém ser transgénero aos quatro anos de idade? Matthew Stubbings e a sua esposa Klara Jeynes, ambos de 44 anos, da cidade inglesa de Doncaster, acreditam que sim. O seu “filho” Stormy nasceu como uma menina chamada Emerald. No entanto, a partir dos 18 meses, Emerald identificou-se como um menino, como o seu irmão gêmeo Arlo. Logo, eles estão a criá-lo como sendo um menino.

“A sua identidade de gênero, o que está na sua cabeça, não combina com o seu sexo físico”, escreveu o pai de Stormy no LinkedIn. “Estou tão orgulhoso por ele saber quem é, por não estar limitado pelas normas e preconceitos da sociedade.”

Felizmente para estas crianças e para os seus pais e, infelizmente, para os especialistas em clínicas de género, as últimas notícias acerca desta batalha levantam uma nuvem de dúvidas sobre a medicina transgénero. Esta parece-se cada vez mais como uma espécie de vudu do século XXI. Num conjunto de publicações, diversos médicos expressaram sua preocupação acerca da disponibilidade e facilidade com que se procede imediatamente a uma transição de género, bem como a sua rápida disseminação entre os jovens.

O Hospital Karolinska trava a fundo

Atualmente, a medicina transgénero utiliza as regras que constam do chamado Protocolo Holandês. Elas permitem-lhes aplicar bloqueadores da puberdade aos 12 anos (e mesmo aos 8-9, nalguns casos). Os tratamentos hormonais cruzados (testosterona para raparigas e estrogénio para rapazes) começam aos 16 anos.

No entanto, esta semana, o mundialmente conhecido Hospital Karolinska, na Suécia, refreou esta tendência - “um momento decisivo”, de acordo com a Society for Evidence-Based Gender Medicine (Sociedade para a Medicina de Género Baseada em Evidências). É a primeira vez que um grande hospital se desvia oficialmente das diretrizes da World Professional Association for Transgender Health (Associação Profissional Mundial para a Saúde Transgénero).

 

O Hospital Karolinska declarou num comunicado à imprensa que as investigações do governo sueco tinham

demonstrado falta de evidências tanto para as consequências de longo prazo dos tratamentos, quanto para os motivos para o grande aumento do fluxo de pacientes nos últimos anos. Estes tratamentos têm potencial para estarem repletos de consequências adversas extensas e irreversíveis, tais como doenças cardiovasculares, osteoporose, infertilidade, aumento do risco de cancro e trombose.”

Na sua prosa subtil, o comunicado de imprensa declara que é “desafiador” para os médicos avaliar os prós e contras do tratamento e “ainda mais desafiador” para os pacientes e seus pais darem um consentimento verdadeiramente informado.

Como tal, o Hospital Karolinska deixará de prescrever bloqueadores da puberdade e hormonas sexuais cruzadas a menores de 16 anos. O tratamento hormonal para adolescentes entre 16 e 18 anos será permitido, mas apenas no âmbito de pesquisas aprovadas por um comité de ética. Basicamente, as autoridades suecas concluíram que a medicação convencional de género é um procedimento experimental potencialmente perigoso.

O estudo de Westmead

No mês passado, vários médicos do Westmead Children’s Hospital, um grande hospital público em Sydney, publicaram na revista Human Systems uma declaração forte acerca das suas dúvidas sobre o tratamento padrão de disforia de género. Deve ter sido necessária muita coragem, pois, nas entrelinhas, a mensagem que passa é que a equipa de género do hospital está profundamente dividida sobre o assunto. Na verdade, como clínicos, eles identificam os “discursos sociopolíticos polarizados” como um dos maiores desafios que enfrentam.

Aqui estão algumas das questões levantadas.

Primeiro, a medicina moderna ainda não entende muito bem o fenómeno da disforia de género. Escrevem eles que “Apesar da existência de diretrizes, as evidências que servem de base para todos os aspectos do tratamento foram, e ainda são, limitadas”.

Mas nem os pacientes nem suas famílias se aperceberam disso. “As famílias tendem a querer resolver o sofrimento da criança através de medicação, atribuindo-o apenas à disforia de género e considerando-a como um fenômeno isolado, o que leva as famílias a identificarem a solução médica como sendo a única com potencial para resolver a situação.”

Em segundo lugar, muitos dos jovens que solicitaram tratamento, acreditavam que a “afirmação de género” significa intervenção médica imediata - medicamentos e possivelmente cirurgia. Os autores tentaram fazer com que os seus pacientes aceitassem uma abordagem holística da sua disforia, que levasse em consideração a sua família, questões psicológicas e biológicas, mas as suas recomendações “caíram em ouvidos moucos”.

Porquê? Em parte, porque a filosofia de “afirmação de género” implica a aceitação inquestionável de tudo o que o paciente diz. Mas também por causa das informações que obtiveram de amigos, da Internet, das redes sociais e de profissionais de saúde. “Muitas crianças não tinham capacidade cognitiva, psicológica ou emocional para entenderem as decisões que estavam a tomar.” 

Em terceiro lugar, os seus pacientes tinham frequentemente muitos outros problemas sociais e psicológicos, ou “comorbilidades”, na terminologia médica. Sentiam-se intimidados pelos seus colegas e estavam em conflito com os seus pais ou responsáveis. Muitos eram autistas, sofriam de depressão ou psicose, ou tinham sofrido abusos sexuais.

Em quarto lugar, havia muita pressão sobre os médicos para meramente ratificarem o autodiagnóstico dos seus pacientes. Isto revelou-se angustiante ao nível pessoal e eticamente problemático:

Do ponto de vista do clínico, reconhecemos o surgimento desta mentalidade de "tapete rolante" ou "preenchimento da lista de verificação" - o modelo médico para o tratamento da disforia de género despojado de cuidados holísticos (biopsicossociais) – como sendo impulsionado pela crença errada de que a identificação de disforia de género equivale a uma intervenção médica. Ao ser-nos imposto desta forma, sentimos que este discurso sociopolítico específico colocou-nos sob uma pressão significativa, enquanto clínicos do Serviço de Género, para abandonar a prática ética e reflexiva em saúde mental.

A revisão das evidências pelo Instituto Nacional de Saúde e Excelência em Cuidados do Reino Unido (NICE)

Em março, o NICE publicou duas revisões sistemáticas de evidências relativas à utilização de bloqueadores da puberdade e de hormonas sexuais cruzadas, no âmbito de uma revisão dos cuidados de saúde para disforia de género. Descobriu que muitos dos estudos frequentemente citados, são de qualidade muito baixa.

Por exemplo, o The Trevor Project, um grupo bem conhecido que afirma ser "a organização nacional líder no fornecimento de intervenção em crise e serviços de prevenção de suicídio para jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros, queer e questionadores (LGBTQ) menores de 25 anos", cita vários estudos para apoiar as suas reivindicações de medicina afirmativa de género. Quase todos eles foram descritos como deficientes pelo estudo do NICE. Foram utilizadas expressões contundentes como: “com alto risco de enviesamento”, “geralmente de baixa qualidade”, “Nenhum resultado crítico relatado” ou “mal relatado”.

Existem muitas publicações e toneladas de estudos que apoiam o tratamento médico da disforia de género em adolescentes. Nunca faltam Doutorados bem pagos, com contas ativas no Twitter, para espalhar o pó mágico do jargão estatístico sobre as “evidências”. A questão é saber se as suas evidências são robustas e de confiança. Deste ponto de vista, o estudo do NICE foi devastador.

O julgamento de Keira Bell

Em dezembro do ano passado, uma corajosa jovem britânica, chamada Keira Bell, ganhou um processo contra um centro de género que a ajudou na “transição” de mulher para homem. Ela arrependeu-se de sua decisão passados poucos anos. Após um julgamento longo e cuidadoso, o Supremo Tribunal sentenciou que os menores de 16 anos não conseguiam dar um consentimento informado para o tipo de decisões que envolvem uma mudança radical na sua vida, como as que são aplicadas frequentemente pela medicina de género. Também apurou que as evidências para o tratamento clínico nestas circunstâncias eram ténues e pouco convincentes, chegando ao ponto de o descrever como um “tratamento experimental”.

A noção de que os direitos dos transgéneros são a questão dos direitos humanos de nosso tempo é uma ilusão. A ideia de que drogas afirmativas de género e cirurgia são essenciais para curar a disforia é uma ilusão. O medo de que o movimento transgénero seja um rolo compressor imparável é uma ilusão. Estas conclusões não são facciosas; são factos.

Esses desenvolvimentos recentes mostram que há esperança no triunfo da verdade. O que ainda é incerto é quantas vidas de jovens serão destruídas antes readquirirmos o senso-comum.

Michael Cook

Traduzido de Mercatornet

(in https://mercatornet.com/the-pillars-of-transgender-medicine-are-shaking/71798/)